MARIA MESCALINA

Bad trip em carne e osso.

Como manter seus (poucos) amigos (ou “dicas de sucesso em relacionamentos”)

  1. Nunca, jamais, deixe transparecer que você às vezes se sente mal ou deprimido. Amigos não gostam disso. Eles não ligam pros seus problemas. Aliás, eles não querem saber de gente triste. Por isso, finja estar sempre feliz e satisfeito com a sua vida. Amigos gostam de gente feliz. Afinal, o céu é lindo, o mar é lindo, a Bahia é linda, Caetano é lindo… lembram?
  2. Se, por acaso (um SUPER acaso, teoria da conspiração ou destino), você não conseguir esconder deles o quanto algo te incomoda, responda, a cada comentário “sutil e otimista”: “Que nada… estou bem. Estou ótimo! Nada pode estragar meu bom (!) humor.” Amigos querem só a auto-ajuda aplicada. É “O Segredo por Ana Maria Brega”: se mentalizar, vai acontecer).
  3. Se você, além de se sentir triste (às vezes, pq ninguém é assim o tempo todo), tiver sido diagnosticado com depressão, transtorno bipolar ou crise do pânico, nunca, mas NUNCA MESMO, deixe que eles saibam. Estas doenças são “coisa de emo, modismo, coisa de quem quer chamar a atenção. É tudo pra aparecer”.
  4. Não chore. Isso é para os fracos.
  5. Seja rico. Bem, não necessariamente tão rico, mas só faça amizades com pessoas com nível aquisitivo equivalente ao seu. Se eles tiverem uma renda maior que a sua, desista. Você sempre vai ser visto como “o pobre” ou “aquele que não sabe viver” e escolhe prioridades erradas. Ou você vai acabar se endividando para tentar acompanhar o padrão de vida dos seus amigos.
  6. Não reclame. Pessoas que reclamam são sempre tachados de velhos-ranzinzas-mal-comidos.
  7. Não aponte os defeitos deles, em hipótese alguma. Você vai ser enquadrado na categoria “recalcado”. Porque toda reclamação, para eles, é inveja.
  8. Não fale demais.
  9. Não fale de menos.
  10. Não seja gordo.
  11. Não diga que vai ficar em casa no sábado à noite em vez de sair com eles. Vão achar (de novo) que você é “mimimi” demais (ou cuzão, tanto faz).
  12. Se você gosta de compartilhar coisas que considera “bacanas”, não tenha perfil em redes sociais. Amigos odeiam heavy users. Não atualize seus status mais de uma vez por dia e não fale sobre você (o que leva ao item 13).
  13. Nunca escreva sobre coisas pessoais. Ninguém se importa se você está de ressaca, se saiu na noite passada, se ouviu uma música legal, se tem prova, se descobriu uma nova teoria da relatividade. Enquanto você não escrever coisas completamente interessantes, inovadoras ou geniais, não se arrisque. Seus amigos acham que todo mundo é clichê, blasé… menos eles.
  14. Seus amigos, no fundo, não são seus amigos. São amigos de uma pessoa idealizada, segura, de alta auto-estima, perfeita (de acordo com o padrão de perfeição deles), que não existe e NÃO É VOCÊ. Se você não atender qualquer uma dessas expectativas, pode ter certeza: eles fingem ser seus amigos apenas por educação. Ou pena. Ou os dois.

Another fucking day.

so fucking true.

so fucking true.

Se eu fosse a Sbaile

Eu começaria o texto com “Leitores, vocês estão bem? Espero que sim, porque eu tô puta.”. Mas não sou a Sbaile (que, por sinal, não deve nem ter ideia da minha existência), não me interessa se vocês estão bem afinal, ainda creio que este é um blog de nenhum leitor. Logo, não tem ninguém pra eu perguntar se está tudo bem ou não, não to puta e não posso usar uma frase que não é minha.

- Mas a Sbaile não registrou a frase. Qual é o problema?

Bem, queridos e inexistentes leitores, a Sbaile não registrou a frase, não. Mas gosto do jeito com que ela escreve e não faria isso. Mesmo que ela não saiba da minha existência, nem tenha registrado a frase. Pois é. 

- Então por que você continua escrevendo como ela?

Eu não escrevo (sempre) como ela. Só tenho a péssima mania de me apropriar de coisas que parecem legais, como sotaques e afins. Mas… esta não era a pergunta que vocês, leitores imaginários, deveriam ter feito. A pergunta certa é: “como assim, não tá puta?”.

Bem, não to puta porque acordei de “bom humor”. 

*wondering: o céu é lindo, o mar é lindo, a Bahia é linda, Caetano é lindo.*

O que significa que to numa fase de hipomania e logo, logo, vou ter outra crise de depressão.

- E o que a gente tem a ver com isso?

Nada, leitores, nada. Aliás, o que vocês estão fazendo aqui?

*pausa dramática*

Só comentei porque é bom saber como lidar com alguém que está passando pela euforia do TAB.

- É pra ficar com medo?

É. Eu vou ficar, por mais um tempo, irritada, raivosa, descontrolada.

*Ai, que é isso? Elas estão descontroladas!*

E posso morder, arranhar, agarrar estranhos na rua, jurar que to ouvindo coisas, me entupir de dorgas…

Ok, nem tanto. Mas quase isso.

Aí, do mesmo jeito que quando você acha que o mundo vai acabar em cachaça, vem a ressaca moral - que é a etapa emo do negócio.

- Mas você não pode fazer nada?

Não. Não porque estou sem meus remédios. Já contei pra vocês que, pra falar com a minha psi, preciso passar por uma assistente social? Então. E eu trabalho o dia todo e a maldita da mulher só recebe a ala psiquiátrica da clínica às terças e quintas, das 08:00 às 11:00. Por isso estou sem o meu precioso, há 1 mês, alguns dias e um tanto de horas. Como se não bastasse, a toupeira que vos escreve resolveu parar de tomar o negócio por conta própria. Deu merda, lógico.

Mas nem tudo está perdido. Por isso, estou escrevendo um manual para familiares e amigos, entitulado: “Como saber se está na hora da camisa de força?”. Nele vocês vão aprender a distinguir as fases do TAB, quando vai ser preciso dopar o ser endiabrado em questão, qual é o momento certo de “entregar para deus” e muito mais.

Acompanhem.

PS: Este é um blog autobiográfico de ficção. Qualquer semelhança com a realidade terá sido proposital, embora não haja nenhuma garantia sobre a veracidade das informações aqui contidas. 

Levar esses textos a sério causa impotência sexual.

E essa frase é da Natália, viu?

[Flash 9 is required to listen to audio.]

Los Hermanos é tida, por muita gente, (entre tantos outros rótulos) como uma banda feita para a galera “indie-deprê”. Nunca discordei disso, até porque as próprias letras confirmam a toada. Mas o que realmente me chamou a atenção é que, no meio desse monte de classificações, ainda não tinha lido uma tão bem colocada como essa do Vinícius Nisi:

“Uma banda de rock brasileira cantando a plenos pulmões “Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei, não é assim… mas deixa eu fingir e rir”. Sem mais, né? Dá pra ser romântico, fazer rock, cantar em português, sem ser cover da Legião.”

Simples e verdadeiro.

Mas as pessoas na sala de jantar…

Acho que é uma das “verdades universais” que, quando você não tem mais ninguém, ainda pode contar com a sua família. Pois, queridos leitores, esta é uma grande mentira. Não que se aplique a todas as famílias, mas de que adianta pedir ajuda para um grupo de pessoas que, além de agirem como se tivessem feito um favor à humanidade por te sustentar até que você começasse a trabalhar, não têm a mínima noção de quem você é?

Falo isso porque a última coisa que ouvi da minha mãe quando perguntei se ela sabia qual era o meu problema foi “sim, falta alguma coisa no seu cérebro”, acompanhado de um olhar de desdém e precedido de alguns gritos de “volta já aqui!”, quando dei as costas e fui embora. Para a sorte dela, creio que estas foram as últimas coisas que ela me disse. Para sempre.

E faz sentido, vejam: se eu percebo que estou no meio de um crise e imploro peço ajuda, é porque realmente não consigo sair dessa sozinha. Não é para chamar a atenção, nem por capricho (estes dois motivos são os que eu mais ouço), até porque nem eu, nem os outros bipolares/depressivos/psicóticos/paranoicos/whoever, nem qualquer pessoa no mundo se expõe “pra fazer charminho”. Não é legal. Não é “gratificante”. E, se ainda restavam dúvidas quanto a isso, garanto que é uma puta de uma humilhação ter que dizer pra alguém: “Fulano, preciso de você. Não sei o que fazer da minha vida. Sou um completo fracasso e nem pra me matar eu sirvo”, depois da enésima vez que você é encontrado no chão por ter feito uma forca e a corda ter arrebentado ou ter se entupido de remédios e terem te obrigado a vomitar (“essa é a minha vida, esse é o meu clube”). Aí - olha só, que desplante - parar de falar com a família é um ato de crueldade e ingratidão. My ass!

Isso me faz concluir que só existe uma coisa pior do que se expor ao pedir ajuda: se tornar motivo de desprezo por quem, supostamente, deveria te amar e te entender. E sabe por quê?

Porque “as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”. E só. E como contar com alguém que só se preocupa com o próprio umbigo? Não conta, neh.

Menos pior que ontem. Menos melhor do que amanhã.

OMFG, I’m so fucking lost (or “About this bloody blog”)

Este é mais um dos (incontáveis) blogs que eu já tive. Acho que faço isso desde sempre, porque escrever deve ser, provavelmente, minha única redenção. E escrever anonimamente é infinitamente menos doloroso e agressivo. Afinal, por que eu me submeteria a um perigo maior do que eu mesma, não é? Se não me identifico, não me atingem. É bobo, mas funciona.

Bem, melhor eu me apresentar. Sou mais uma “vítima” (isso soa de uma forma patética, mas acho que é palavra menos inapropriada pro caso) do TAB. Sim, a doença da moda - junto da crise do pânico e da agorafobia. Anorexia não conta porque é “mainstream and so last season”…

Então, como em toda boa doença que cai na “graça do povo”, dependo de remédios controlados para viver. Ou melhor, para “me impedir de me matar”. O que não seria exatamente suicídio, mas sim um homicídio, já que uma parte de mim quer matar a outra. Weird, huh?

Mais estranho ainda é eu ter pleno conhecimento disso e não conseguir fazer nada a respeito por conta própria (digo, sem estar dopada). Aí a “galera de Jesus” ia dizer que isso é falta de deus no coração, mas, eu garanto: não é. Até porque no coração não tenho nada além de músculos que se contraem involuntária e ritmadamente. Se fosse o caso de ter “deus no cérebro”, também seria um problema, porque se existe um ser/força/whatever superior, acho que “isso” foi extremamente sagaz por me dar inteligência suficiente para não atribuir aos outros os meus próprios problemas ou minha salvação.

Então, voltando: eu nasci com isso. É como diabetes, sabe? Bem, diabetes, não. É como… AIDS! Se você nascer com o vírus, há predisposição a desenvolver a doença. Mas, em contrapartida, se o vírus não for “ativado”, pode passar a vida toda sem manifestar sintoma algum. Pois bem, “Megazord, ativar!”

E, como no caso da AIDS, o problema não é ser doente. Até porque (dizem as más línguas por aí que) quem assume o problema está a meio passo da cura. Bang! Wrong answer: não existe cura. Isso significa que eu estou amaldiçoada a conviver com duas pessoas dentro da minha cabeça, pelo resto da vida. 

Aí você pensa: mas é possível ter uma vida normal, é só tomar os medicamentos. Sim. E você acha justo precisar se dopar, com o consenso de médicos e da família, todos os dias da sua vida, simplesmente pra não odiar o mundo todo e a você mesmo? Eu, não. Não é justo. Não é vida, é um inferno constante. Por isso, se houver esse lance de purgatório e eu não for para o céu, vai ser fichinha. Só quem tem isso pra saber.

Por isso eu fiz esse blog:

  1. Pra falar mal do mundo e de mim sem ninguém torrar minha paciência com frases de livros de auto-ajuda ou com tentativas de me converter;
  2. Pra fazer um acervo de cartas de suicídio (elas podem ser úteis algum dia. Se acontecer, prometo que me identifico para que alguém possa enviá-las às pessoas certas);
  3. Pra ter um lugar onde publicar meus textos infames e estúpidos;
  4. Pra ver se, ao me ler, consigo me conhecer melhor e, quem sabe, achar uma alternativa aos remédios. Ou à vida, o que vier primeiro.
- Mas por que “Maria Mescalina”? Dorgas, manolo. Todas elas (maconha não conta, fique claro) podem te levar a uma bad trip, right? E a onda negra da mescalina é igualzinha à minha vida com transtorno bipolar.
That’s it. Agora tudo está mastigado e perfeitamente compreensível. Ou não. Por isso, em caso de dúvidas, entre em contato pelo e-mail mariamescalina@gmail.com.

Cheers.